terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Expresso

Agora
eu escrevo
na tentativa inútil de expressar
o meu sentimento

é inútil
porque o momento
que deveria
ter sido expresso (como o trem)
já passou
e só me resta a poesia

talvez a única forma que
externalizo-me por completo

não fosse ela
a poesia
estaria agora engasgado
sufocado
talvez morto
ou vivo

mergulhado nos versos
submerso em meu universo
penso
e fico.

Por Rene Serafim - "Juninho"

domingo, 4 de outubro de 2009

Mediterrâneo

uma dose dessa overdose
intravenosa e ácida
e os barcos fazem o levante

o vento sopra a favor
e eu vou navegando
nesse mar sem fim

quando abro meu abraço
congelo-me nesse apogeu
que me derrete por completo

na tempestade tropical
cerco-me
esvaeço-me

mas o sol aparece
e com o calor
me aquece

Por Rene Serafim - "Juninho"

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Poesia-vazia

No vazio
e escuro do quarto
internalizo-me.

Silenciosamente
escrevo os atormentos
e as loucuras.

Minha internalização externaliza-se
na forma de lágrimas
e descarrega o peso
da solidão que por ora me consome.

A garganta se fecha.
Os olhos já não enxergam
com o acúmulo da coisa lacrimal.

O sentimento todo deságua
quando num filme ele,
no caso eu,
lê a seguinte frase:

“Felicidade só é real quando compartilhada”

E este conjunto de palavras
denominada de frase
é o limiar deste descarrego
de sentimentos
traduzido em poesia
mas que sequer atingiu
o que eu realmente sentia.

P.S. Para você que agora compartilha a minha poesia. Ao ler, ouça essa MÚSICA.

Por Rene Serafim - "Juninho"

domingo, 27 de setembro de 2009

Singela homem-nagem

O nêgo se foi
e a jamaica faz festa
tem carne de boi
e à noite seresta.

Tem Bob tocando
na entrada do paraíso
e Barrey vai adentrando
com aquele sorriso.

Fica a fotografia
naquela cozinha
não vemos seu rosto
só sentimos sua alegria.

P.S. Para Barrey.

Por Rene Serafim - "Juninho"

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Carta Magma

Uma pausa na poesia.

Anseios e conflitos nos movem todos os dias na forma de angústias, sofrimentos, tristezas, incompreensões, prazeres, desejos, realizações, sonhos e muitas outras coisas que no fundo possuem um só significado: tensão. Talvez a saída mais fácil e prazerosa, diga-se de passagem, seria retirar o “n” do meio desta palavra. Mas é preciso tensão em equilíbrio constante para que a corda não arrebente em um dos lados.

A corda não é de ferro nem é de aço. Ela é fruto das relações humanas intangíveis. Cedo ou tarde, arrebenta no nosso lado. Infelizmente o nosso é sempre propenso a receber a lapada do ato. Antes fosse teatro.

Agora apronfundaremos a nossa questão que possui múltiplas escolhas. Ir ou não de encontro ao rompimento da nossa corda? Iremos. O rompimento é parte do processo. Ao ir, vamos ao novo anseio, conflito, angústia, sonho, prazer (...), ou seja, um novo ciclo se inicia.

Buscar o equilíbrio da nossa nova corda é a questão essencial. Não interessa os meios utilizados nem os valores socias colocados sobre a mesa. Serviremos o jantar com a sobremesa.

Esqueci de falar da corda. “Shame on you!” diria os ingleses. A apresentação deveria estar antes de começar o texto. Opa! Quebrei uma regra culta que não estava bem incutida na minha cabeça. Mentira. Estava e foi proposital. Apenas estou dando vida à corda. Primeiro ela existe e não sabe que existe. Depois é que ela vai se preenchendo e dando forma e essência ao seu corpo de corda.

Nessa confusão de palavras soltas e ideias desconexas, consigo visualizar a intencionalidade de toda essa filosofia barata e xucra: a decisão de se arrebentar deve partir da corda para o todo. Ah! E o todo só é todo porque elas, as cordas, existem.

Voltemos à poesia.

Por Rene Serafim - "Juninho"

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Curta-metragem

Não há rima
nem prosa
o auto-retrato
reflete em mim

faço versos
livres
soltos

agora fico deitado
sobre o meu todo
enfim

faço versos
presos
enjaulados
acorrentados em mim.

Por Rene Serafim - "Juninho"

domingo, 20 de setembro de 2009

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Dez horas

Não posso ser feliz por completo.
Se serei?
Não sei.
Mas minha poesia necessita de tristeza e doses de solidão.
Porque elas são fontes.
Inspiração.

Carrego no peito sangrado o gosto acre da vida.
Aperto meu cinto. E sinto.
Derramo o pouco doce que sobra longe de mim.

Não estou sendo vítima de mim mesmo.
Pelo contrário.
Estou apenas mostrando que os meus versos cantam
a canção fúnebre em tempos de alegria.
E que somente eu sei sobre a minha poesia.

Por Rene Serafim - "Juninho"

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Entre-laços

Faço estes versos
Enquanto dormes
Reluzente e presente
Na minha cama
Ainda sinto seu cheiro
Nos corpos
Deitados e experimentados
Amados.

Por Rene Gonçalves Serafim Silva - "Juninho"

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

1ª Pessoa do singular

Você carrega as mágoas
nas profundezas mais profundas.
Chora lágrimas já sem sal
e cristalizadas.

Você guarda e aguarda
o metrô da madrugada.
Retira-se da linha
não mais utilizada.

Você caminha a três horas
de sua morada.
E ao chegar
está mais frio.

Você derrama o sangue
que fora vermelho.
Agora ele sequer
tem cor.

Você hoje é um ser
metamorfizado.
Talvez um verbo intransitivo
mas que aceita exceções.

Você é...
a primeira pessoa do singular.

Por Rene Gonçalves Serafim Silva - "Juninho"

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Lado B

O silêncio líquido
será a resposta
para o meu segredo.

Ao não dizer,
falarei mais alto
e mais profundo.

Com as asas de quem quer voar,
corto as minhas
na esperança de um dia
fazer-te acreditar.

E no lirismo barato que por ora faço
tento num impulso,
súbito e intenso,
colocar em palavras
tudo aquilo que existe
na minha abstração sentimental.

O prazer de fazê-los,
os versos,
é semelhante ao gozo noturno
dos dias quentes.

E como quem sente sou eu,
escrevo.
Fim.

P.S.: Feito na rodoviária de Ribeirão Preto.

Por Rene Gonçalves Serafim Silva - "Juninho"

domingo, 6 de setembro de 2009

Passarela Rubens Pasin

Atravessando a passarela Rubens Pasin
senti o odor da urina lá deixada
por um transeunte qualquer na madrugada.

Ao olhar ao meu redor
deparei-me com a forma mais pura e poética da vida:
as marcas deixadas por todos que ali passam.

Subitamente aflorou em meus poros a poesia
e exalou meus sentimentos fugazes.

Tudo isso por causa de uma passarela.

Por Rene Gonçalves Serafim Silva - "Juninho"

domingo, 30 de agosto de 2009

Colcha-de-retalhos

Minha poesia é feita de retalhos
gasto com o uso intenso do cotidiano.

A construção não segue métrica
e percorre um caminho espiral.

Traduzo em poesia
tudo aquilo que não existe em palavra.

Coloco a lente poética
e enxergo o mundo subjetivamente.

Seja em cores ou em preto-e-branco
revela os meus
e talvez os seus momentos íntimos.

E no final,
os retalhos que eram só pedaços
transformam-se nesta colcha.

Por Rene Gonçalves Serafim Silva - "Juninho"

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Déjà vu

E ao retirar o peso
que existia em suas costas
o pai conversa com o filho.

No diálogo caloroso e fraterno
havia o cheiro da cumplicidade
exalada pelas bocas.

E a mão maior
toca no ombro do pequeno
que agora caminha
apenas com o peso do corpo miúdo.

Neste instante um déjà vu perpassa pela minha mente
e recorda as lembranças mais belas da infância.

De um tempo em que o único peso que eu carregava
era o peso da minha própria mochila.

Por Rene Gonçalves Serafim Silva - "Juninho"

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Sorriso de Mona Lisa

Agora, sinto o dia frio
e essa chuva fina
cai sobre mim.

Pego meu guarda-chuva
e sigo o caminho noturno
de todas as segundas-feiras.

Faço a minha obrigação
e se católico fosse
colocaria o agradecimento
em minha oração.

Volto para a casa que não me pertence
e com os sapatos molhados
caminho na penumbra
da minha própria sombra.

Abro a porta
e me deparo com a solidão.

Ela sorri e diz:
- Existem coisas piores que a minha presença.


Por Rene Gonçalves Serafim Silva - "Juninho"

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto longo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

Por Manuel Bandeira

_____________________________________________________________

Comentário:

Dois momentos distintos: a cultura religiosa de saudação, mesmo sem saber a quem se deve tal gesto e de forma mecânica - retirar o chapéu como forma de respeito. No outro, a libertação dos valores impostos muitas vezes sem significação ou sentido para o indivíduo que o absorve sem questionamento ou entendimento.

Ao fazer gestos de "adeus" ao morto, as pessoas do café mostram-se inteiramente envolvidas com uma questão de valores religiosos que transcende o sentido da vida enquanto aquela para ser vivida. Aqui, a saudação é para a morte, que carregou o indivíduo e simplesmente esquecem de refletir o verdadeiro sentido de suas respectivas existências.

Entretanto, o esclarecimento de um indivíduo que questiona, mesmo que no seu interior, o verdadeiro sentido daquela cena, revela para si próprio algo que para muitos é assustador: o existencialismo efêmero nosso enquanto ser e a falta de finalidade da vida. Nota-se aqui a aproximação de Manuel Bandeira com a filosofia de Sartre acerca do Existencialismo.

Por último, os dois últimos versos confirmam o que fora dito sobre o existencialismo. A saudação à carne, à matéria que não é mais viva. E que agora está em liberdade eterna de uma alma extinta.

Por Rene Gonçalves Serafim Silva - "Juninho"

sábado, 15 de agosto de 2009

Poesia Inacabada

Sedento e insaciável,
ávido por novas palavras
ou novos significados.

Não me contento
com isto ou aquilo.
Desejo mais que isso.

A busca é eterna,
contínua
e nua.

Corre pela rua
como as águas da chuva
em dias de verão.

E nessa evolução literária
faço revolução
poética.

Os paradoxismos universais
e o lirismo aceitos
serão.

E como quem aprende a dar
os primeiros passos,
caio sempre que necessário.

Eu, um ser anacrônico
neste poema
lacônico.

Por Rene Gonçalves Serafim Silva - "Juninho"

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Uma didática da invenção

1.
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

[...]

Por Manoel de Barros

_____________________________________________________________________________________

Comentário:

Esta poesia é apenas a primeira parte de várias outras sob o título de "Uma didática da invenção" de Manoel de Barros. Apalpar as intimidades do mundo é muito mais que escrever sobre coisas simples ou, como o próprio Manoel de Barros usualmente cita, as insignificâncias do mundo. É sentir.

Ao sentir as insignificâncias do mundo logo percebemos as nossas e, consequentemente, estas deixam de ser insignificantes e passam a ter um valor sentimental. Valor pessoal, subjetivo e, de certo modo, poético.

Paro por aqui e deixo vocês refletirem sobre estes princípios de como apalpar as intimidades do mundo e a pensarem sobre os seus próprios princípios.

Por Rene Gonçalves Serafim Silva - "Juninho"

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Quebra-cabeça

Vomitarei palavras aleatórias,
vogais e consoantes serão meu quebra-cabeça.
Tentei encontrar algumas palavras,
mas fracassei nessa brincadeira.

Talvez a minha ignorância não deixe
que eu brinque de quebra-cabeça.
Talvez eu tenha nascido com alguma disfunção
ou então com a cabeça quebrada.

Será melhor mudar de brincadeira?
Será melhor deitar e dormir?
Será...
Um dia sem quebrar a cabeça.

Por Rene Gonçalves Serafim Silva - "Juninho"