domingo, 31 de julho de 2011

Quereres sim ou não


Esse tal de quereres
ora sim ora não
que me queres
sempre assim
nesta inconstante ilusão
o quereres que eu falo
é o quereres da vida
da noite
da boêmia
da solidão

esse tal de quereres
queres sim
queres não
nesta inconstante ilusão
que me queres
ora sim
ou não.

Por Rene Serafim - "Juninho"

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Aos meus poetas preferidos


estes versos são
para meus poetas preferidos
seriam tantos
seriam vários
mas hei de destacar

um já está morto
o outro ainda vivo
o que está morto era um cachorro louco
o segundo, pantaneiro,
é o famoso Manoelito.

Por Rene Serafim - "Juninho"

segunda-feira, 28 de março de 2011

Carta de Amor


Quando escrevi minha carta de amor,
não enviei por e-mail
porque creio que escrever uma carta
é mais nostálgico.

Economizei nas palavras também.
Não é porque meu amor seja menor,
tampouco seja porque você
não as mereça.

O papel que usei não foi dos melhores,
e a tinta da caneta estava falha.

O envelope era comum
não tinha nenhum detalhe
nenhuma coisa especial
nem um nem outro.

Os selos, que nostalgia,
eram aqueles que a gente
compra nos correios por
apenas um centavo.

Essa carta de amor, minha querida,
foi feita da forma como a descrevi
não porque você não é importante
mas porque o meu amor é assim,
de uma só palavra: simples.

Simples como os abandonos
das coisas e das gentes.
Como estes meus versos
que carregam a simplicidade
do maior amor do mundo.

Por Rene Serafim - "Juninho"

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Desconstrução

não uso mais rascunhos em meus versos
nem letras maiúsculas,
as vírgulas só antecedem minhas vontades.

quando estou para verbos
solto-os com a brisa que precede a chuva
molhando minhas intransitividades menores.

nunca fui para a poesia,
ela é que sempre esteve para mim.

se hoje eu rabisco um texto
é porque não sei escrever
de outra forma.

meus desconsertos são tantos
que me tornei um sujeito
de desconstrução da frase.

Por Rene Serafim - "Juninho"

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Palavreado

sentir a palavra cansada de ser,
para isso o poeta inventa.

desmembrar seus núcleos
fatigar seus delírios
distorcer seus vocábulos
embriagar seus versos.

traduzir em várias línguas:
dos sapos,
dos bois,
das aves,
das rãs,
até mesmo a dos homens.

enquanto houver poesia
e o poeta puder escrever
palavra nenhuma
cansará de ser.

no máximo esticará seu cansaço
até a varanda de casa
esperando um novo raio de sol,
na poeira invisível.

Por Rene Serafim - "Juninho"

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Paisagem insípida

desconsertar a palavra
é um dom que somente a poesia tem

fazê-la perder o juízo
o compromisso
a meninice

e ainda que quisesse
fazê-la de mim
a insignificância de ser mato

que eu deixasse de ser poeta
passasse a ser uma paisagem
insípida aos olhos ordinários

e ao final do dia
pudesse contar à minha mãe
que naquele dia eu era verde

e que amanhã
poderia ser azul
do céu ou mar.

Por Rene Serafim - "Juninho"

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Livro

Hoje é só uma ótima notícia, nada de poesia. Eu e a Fernanda Tavares tivemos o projeto de livro "Inutilidade Poética" aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura da Prefeitura Municipal de Uberlândia. Portanto, meus caros, a previsão para a publicação é setembro de 2011, mas vão acompanhando em nossos twitters e blogs os rumos deste nosso livro.

Contatos:
@_meninadosolhos e Menina dos Olhos
@rene_serafim

Obrigado!
Eu sustento com palavras o silêncio do meu abandono (Manoel de Barros)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

10 de Novembro

Quero as palavras
embevecidas de dizer,

repetidamente
em ritmo impetuoso

cujo frenesi
de bocas
e corpos

no ardente desejo
novamente acalma
estes dois corações vagabundos,

que ainda acreditam no amor.

Por Rene Serafim - "Juninho"

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Metafísica da alma

porque das lágrimas que caem
aos meus ouvidos
como as pétalas
das rosas
ressurge o sorriso
na face
da nova estação,

pois é primavera
coração.


Por Rene Serafim - "Juninho"

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Corazón vagabundo


enquanto tu pegas
minha mão
com a palavra

apalpa também
minh’alma
com o doce sabor
do amor

e por isso

carrego-te viva
no lado de dentro
do peito

que agora carrega
dois corações vagabundos.

Por Rene Serafim - "Juninho"

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Romantismo Barroso

Queria mostrar-te a beleza do sol
quando às seis horas da tarde
refresca-se no horizonte longínquo.

Queria mostrar-te o cheiro do orvalho
e sua insignificância poética
nas madrugadas vazias.

Queria mostrar-te a chuva
e a limpeza de suas gotas
sobre a alma pesada.

Queria mostrar-te o ocaso
da minha poesia
e dos lugares abandonados.

Queria mostrar-te a saudade
que por ora ocupa
meu único espaço.

Por Rene Serafim - "Juninho"

domingo, 1 de agosto de 2010

Do(r) maior


minha escala por ora
constante e cortante
que como um tormento
aflige os dedos calejados
no dedilhar poético

não há meio tom
tampouco outra nota

só existe dor
velada num sorriso
amarelo-amargo
desse descompasso
que é o amor. 

Por Rene Serafim - "Juninho"

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Diálogos sobre o amor

Ele: Eu aprendi a amar, meu bem. A amar de verdade.
Ela: (Lágrimas e mais lágrimas)
Ele: Olha pra mim?!
Ela: Tem uma represa transbordando de lágrimas nos meus olhos.
Ele: E você, o que aprendeu?
Ela: Eu aprendi o necessário, o necessário do amor.

Por Eles.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Meu samba


se meu samba
também é saudade
o toque do meu cavaco
toca seu corpo
no dedilhar
da escala

e quando meus dedos
cansados de tocar
parar o enredo
repousará seus calos
nas águas mansas
do seu quintal

enquanto isso
o eco das notas musicais
hão de pairar
sobre os ares
na decomposição lírica
destes versos. 

Por Rene Serafim - "Juninho"

sábado, 26 de junho de 2010

Prenúncio


se nada mais importa
há quem de fato
se importe
posto que vida é fogo
em chamas

e das cinzas que sobram
restam a essência
daquilo que um dia foi
e que agora é passado

ademais
nada existe sem um propósito
ainda que relutante
do ato de ser

e se a água apaga as labaredas
afogam também as verdades
subtraídas do inconsciente

Por Rene Serafim - "Juninho"

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Entre quatro paredes

 
Acendeu o cigarro. Deu dois tragos seguidos e antes que a fumaça 
saísse de seus pulmões bebeu o vinho barato comprado na venda
da esquina. A taça, que sustentava o líquido vermelho-sangue, era
uma herança da tia rica que deixara como recordação daqueles 
velhos tempos de boêmia e madrugadas alcoólicas. Cigarro ainda
queimando na boca do indivíduo. O quarto escuro, vazio e envolto
em fumaça era o cenário decadente e cada vez mais constante. 
Apenas a cadeira e a mesa de elementos fixos e imutáveis naquela
maloca. A madrugada era uma verdadeira tortura. Os maços de
cigarro se multiplicavam sobre a mesa. O vinho, que era pouco, 
deu lugar à cachaça do último aniversário. Vizinhos sequer sabiam
o que ocorria naquele local sombrio e esfumaçado. Apenas sabia-se
que o indivíduo lá dentro usava como fuga ou passatempo os dois
tragos. O odor de seu suor de pinga e tabaco exalava pelas paredes
afora. Até que chega a convidada da noite, sem pedir licença
ou permissão para entrar, simplesmente atendendo um antigo convite
do homem de aparência cansada (da vida ou da espera) sentado
à mesa. Na manhã seguinte não existia mais nada, exceto as cinzas
e as bitucas no chão, a taça de vinho quebrada e o cheiro impregnado
nas quatro paredes do quarto.

Por Rene Serafim - "Juninho"

sábado, 12 de junho de 2010

Minh’alma


Poderia escrever vários versos
para traduzir a sua língua
entrelaçada à minha.

Decifrar nossos braços
nos abraços.

Como nas noites regadas a música
poesia, conversas, álcool e loucura.

Mas fico só nestas poucas palavras
para dizer o inefável
o invisível
aos olhos
e corpos nus.

Por Rene Serafim - "Juninho"

domingo, 30 de maio de 2010

Saudade

-
palavra de sentir
que não se conjuga
porque não é verbo


palavra nostálgica
que carrega todos os pretéritos
perfeitos ou não

adjetivo indesejado
nas classes gramaticais
e poéticas da vida

saudade
palavra minha.

-

terça-feira, 25 de maio de 2010

Noite de outono

-
o encontro inevitável
das bocas
e dos toques

o momento inefável
dos corpos
sobre a cama

o tempo agradável
após o gozo
na noite

fria
e quente.

Por Rene Serafim - "Juninho"

domingo, 9 de maio de 2010

Pandora

-
Era pra ser assim?
-
Que o pão de cada dia
seria duro e amanhecido
Que as distâncias
seriam ainda maiores
Que a amizade
seria virtual
Que o salário
seria mínimo
Que a exploração
seria máxima
Que a educação
seria falácia
Que a riqueza
seria dos nobres
Que a labuta
seria dos sans-culottes
Que a cultura
seria de massa
Que a chuva
seria ácida
Que o antidepressivo
seria cachaça
E que a poesia
seria sem graça.
-
Existe outra globalização?

Por Rene Serafim - "Juninho"