Poeta, s.m. e f.
Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu
Espécie de vazadouro para contradições
Sabiá com trevas
Sujeito inviável: aberto aos desentendimentos como um rosto.
(Arranjos para Assobio, 1982. Manoel de Barros)
Em versos transnominados escritos em rastos de lesmas
fico em estado de árvore quando vos leio
Apalpo as intimidades do mundo como o sapo (de barriga pro chão)
lambe a mosca no rasgo do dia
Agora em estado de pedra vejo o canto amarelo
e verde do passarinho vestido de luz
E o silêncio líquido que corre entre
dois jacintos escurece-me de poesia
A poesia? Não serve de nada
se não for para ser incorporada
Tenho profundidades em não saber quase tudo
sem saber que não sei nada
A água que corre nesse riacho
passou em forma de pássaro
no céu rubro da noite anunciada
E o cu da formiga virou-se para o mundo
e mostrou que as borboletas de tarjas vermelhas
quando em túmulos são mais bonitas
Nesse inutensílio que é a poesia
sou professor de agramática
e fazedor de significados que não existem
Melhor: dou ressignificações a palavras
que têm suas bundas viradas para o chão
Coloco cheiro e cor
onde só existia palavra
E como o esplendor da manhã
meus versos também não se abrem com faca
P.S.: Haicai feito enquanto urinava no banheiro da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) no festival MUSGO, recitando para o Diógenes que fazia a mesma coisa ao meu lado.
Um lirismo sincero
é isso que eu quero
duas doses do seu beijo
eu desejo
Na ternura do abraço
me enlaço
No toque doce dos lábios
arrepios
Se sentir está além
das limitações humanas
e das aparências
eu quero fazer parte
dos sentimentos
mais belos
vivos
ardentes como os corpos
quando se encostam
no começo da noite
ou no acordar matinal
O prazer de escrever
tais versos
carregados de uma verdade
vivida silenciosamente
e compartilhada pelo desejo
possui a mesma sensação
do cheirar a grama molhada
das gotas de orvalho
Ainda sim
são poucos versos
para dizer tudo
que se faz necessário
Precisaria de toda a poesia
do mundo
ou
vinte anos de poesias diárias
escritas em cada segundo do tempo
com o olhar da menina
Finalizando este poema sem fim
entrego-te este presente
que na mais súbita vontade
saiu do meu corpo
e agora pertence a ti.
Por Rene Serafim - "Juninho"
P.S.: Parabéns Menina dos olhos. "Todo amor que houver nessa vida", eu diria.