quarta-feira, 10 de março de 2010

Leveza do grito

-
Amargo é o gosto
no canto do rosto
em relva molhada

tormento sereno
prepara o terreno
com raios de sol

sob impulso
corto meu pulso
de sangue estático

inerte à dama
friamente me chama
com o corpo sangrado

do outro plano
finjo e engano
o silêncio dissimulado.

Por Rene Serafim - "Juninho"

sexta-feira, 5 de março de 2010

Sujeito escaleno



após me sujar de Barros
descobri ser escaleno menor
onde homem nenhum mija na minha poesia
somente sapos, aves e ocasos

aliás,
os ocasos são meus preferidos
vêm sempre ao final da tarde
quando o sol cansado
deita sob o mar

foi assim que aprendi a ser gente grande
debruçando-me sobre restos e urina
e me esquecendo das verdades

ainda hoje resquícios pairam e param
mas a poesia me salva.

Rene Serafim - "Juninho"

segunda-feira, 1 de março de 2010

Dança da solidão

-
de novo
na mesma dança-solidão
só que agora
é samba
cuíca e tamborim
puxando a entrada
enquanto meu cavaco
já sem corda
encerra o enredo
carnaval

Por Rene Serafim - "Juninho"

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Resquícios invisíveis de um quarto


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Hoje, um feliz aniversário pra mim.

Por Rene Serafim - "Juninho"

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Silêncio eólico


silêncio
igual ao vento
passa e ninguém repara
se não senti-lo
quente ou frio
forte ou fraco
fala com o olhar
que fica do lado de dentro.

Por Rene Serafim - "Juninho"

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Sobre a morte

a morte
não escolhe dia
tampouco hora

só escolhe o sujeito
que em estado de graça
ou não
ajoelha-se e reza

ela vem como uma dama
sem piedade
leva quem menos se espera

agora?
como num tango
a dama desliza e delira
o sujeito à frente.

Por Rene Serafim - "Juninho"

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O cantar dos olhos



o olho
não segura
o peso de uma lágrima

quando
esta carrega
o outro
dentro do coração vagabundo

Por Rene Serafim - "Juninho"

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Eterno mutante

aqueles abraços
de gosto terno
e eterno
com o cheiro da gota
que corre
e escorre
no verde da grama
em dias de chuva

aqueles sorrisos
pintados à mão
onde nenhum artista
consegue expressar
a beleza subjetiva
contida

aqueles olhares
de menina
que com ternura
e encanto
me transformam em outro

outra coisa além de mim
ou melhor de mim.

Por Rene Serafim - "Juninho"

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Poema alado


quando abri a porta
 do mundo
caí direto nos versos
 de Barros
onde a palavra tem
 cheiro
cor
vontade
desejo
mutação
imperfeição
nadifúndios

só não tem significado

Por Rene Serafim - "Juninho"

domingo, 17 de janeiro de 2010

Ó dor


a dor
palavra que sente

sobre o nosso corpo
ou mente

tortura o sabor
da vida
com um gosto acerbo

sensata
a pele repele
o líquido amargo

ardor?
não, só dor.

Por Rene Serafim - "Juninho"


quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Versos de Barros


Poeta, s.m. e f.
Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu
Espécie de vazadouro para contradições
Sabiá com trevas
Sujeito inviável: aberto aos desentendimentos como um rosto.

(Arranjos para Assobio, 1982. Manoel de Barros)


Em versos transnominados escritos em rastos de lesmas
fico em estado de árvore quando vos leio
Apalpo as intimidades do mundo como o sapo (de barriga pro chão)
lambe a mosca no rasgo do dia

Agora em estado de pedra vejo o canto amarelo
e verde do passarinho vestido de luz
E o silêncio líquido que corre entre
dois jacintos escurece-me de poesia

A poesia? Não serve de nada
se não for para ser incorporada
Tenho profundidades em não saber quase tudo
sem saber que não sei nada

A água que corre nesse riacho
passou em forma de pássaro
no céu rubro da noite anunciada

E o cu da formiga virou-se para o mundo
e mostrou que as borboletas de tarjas vermelhas
quando em túmulos são mais bonitas

Nesse inutensílio que é a poesia
sou professor de agramática
e fazedor de significados que não existem

Melhor: dou ressignificações a palavras
que têm suas bundas viradas para o chão

Coloco cheiro e cor
onde só existia palavra

E como o esplendor da manhã
meus versos também não se abrem com faca

Por Rene Serafim - "Juninho"

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Silêncio indesejado


a palavra
quando dita ou escrita
pode cortar

mas o silêncio
quando quer falar
queima
consome
faz um estrago.

Por Rene Serafim - "Juninho"

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O saciar das bocas


se nesse toque
as peles se encostam
enroscam
a sede das bocas
saciam
e
outra vez
gritam
num embaraço
de laço
que por ora
faço
com sua língua na minha.

Por Rene Serafim - "Juninho"

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Na virada do copo

Velho ou novo
tudo recomeça
de novo

se será nova aventura?
como todo velho ano
a dúvida perdura

deuses do além
mais um de tantos anos
agora vem

a galope e destreza
na virada do copo
só não há tristeza

Por Rene Serafim - "Juninho"

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Tanto Faz

aparência
ou
transparência

se digo
ou
não digo

o amor
é
silencioso
Por Rene Serafim - "Juninho"

sábado, 19 de dezembro de 2009

Parabéns!

Parabéns ao Manoel de Barros, pelos 93 anos de poesia.

Do lugar onde estou já fui embora.

Eu também...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Foi você


aquele silêncio
gravado sobre a pele
apalpou
a sua mão na minha

o que sobrou foi
cheiro
sabor
textura
de algo inefável

o horizonte ainda não alcança
pois
não há limite
no coração de gelo
que
de tanto calor
transformou-se
rio
nesse silêncio líquido

Por Rene Serafim - "Juninho"

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Quando tudo fica assim


a sombra
me queima
como o sol
que se põe

poema
só queima
quando a palvra
corrói

prosa
não queima
nem mesmo
destrói

e essa poesia?

Por Rene Serafim - "Juninho"

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Doce sabor da cura



se a acidez dessas palavras
corroeu seu sentimento
é porque a solução estava forte

não obstante

daquilo que sobraste
fiz do acre
o meu doce sabor

agora

sei que a poção
não tem receita
nem patente

mas

salvou-me de uma ferida
que aos poucos se fechou
e agora está cicatrizada

desculpe

que a sua ainda esteja aberta
embora eu não tenha nenhuma compaixão
tampouco a cura

Por Rene Serafim - "Juninho"


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009