terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Eterno mutante

aqueles abraços
de gosto terno
e eterno
com o cheiro da gota
que corre
e escorre
no verde da grama
em dias de chuva

aqueles sorrisos
pintados à mão
onde nenhum artista
consegue expressar
a beleza subjetiva
contida

aqueles olhares
de menina
que com ternura
e encanto
me transformam em outro

outra coisa além de mim
ou melhor de mim.

Por Rene Serafim - "Juninho"

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Poema alado


quando abri a porta
 do mundo
caí direto nos versos
 de Barros
onde a palavra tem
 cheiro
cor
vontade
desejo
mutação
imperfeição
nadifúndios

só não tem significado

Por Rene Serafim - "Juninho"

domingo, 17 de janeiro de 2010

Ó dor


a dor
palavra que sente

sobre o nosso corpo
ou mente

tortura o sabor
da vida
com um gosto acerbo

sensata
a pele repele
o líquido amargo

ardor?
não, só dor.

Por Rene Serafim - "Juninho"


quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Versos de Barros


Poeta, s.m. e f.
Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu
Espécie de vazadouro para contradições
Sabiá com trevas
Sujeito inviável: aberto aos desentendimentos como um rosto.

(Arranjos para Assobio, 1982. Manoel de Barros)


Em versos transnominados escritos em rastos de lesmas
fico em estado de árvore quando vos leio
Apalpo as intimidades do mundo como o sapo (de barriga pro chão)
lambe a mosca no rasgo do dia

Agora em estado de pedra vejo o canto amarelo
e verde do passarinho vestido de luz
E o silêncio líquido que corre entre
dois jacintos escurece-me de poesia

A poesia? Não serve de nada
se não for para ser incorporada
Tenho profundidades em não saber quase tudo
sem saber que não sei nada

A água que corre nesse riacho
passou em forma de pássaro
no céu rubro da noite anunciada

E o cu da formiga virou-se para o mundo
e mostrou que as borboletas de tarjas vermelhas
quando em túmulos são mais bonitas

Nesse inutensílio que é a poesia
sou professor de agramática
e fazedor de significados que não existem

Melhor: dou ressignificações a palavras
que têm suas bundas viradas para o chão

Coloco cheiro e cor
onde só existia palavra

E como o esplendor da manhã
meus versos também não se abrem com faca

Por Rene Serafim - "Juninho"

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Silêncio indesejado


a palavra
quando dita ou escrita
pode cortar

mas o silêncio
quando quer falar
queima
consome
faz um estrago.

Por Rene Serafim - "Juninho"

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O saciar das bocas


se nesse toque
as peles se encostam
enroscam
a sede das bocas
saciam
e
outra vez
gritam
num embaraço
de laço
que por ora
faço
com sua língua na minha.

Por Rene Serafim - "Juninho"

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Na virada do copo

Velho ou novo
tudo recomeça
de novo

se será nova aventura?
como todo velho ano
a dúvida perdura

deuses do além
mais um de tantos anos
agora vem

a galope e destreza
na virada do copo
só não há tristeza

Por Rene Serafim - "Juninho"

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Tanto Faz

aparência
ou
transparência

se digo
ou
não digo

o amor
é
silencioso
Por Rene Serafim - "Juninho"

sábado, 19 de dezembro de 2009

Parabéns!

Parabéns ao Manoel de Barros, pelos 93 anos de poesia.

Do lugar onde estou já fui embora.

Eu também...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Foi você


aquele silêncio
gravado sobre a pele
apalpou
a sua mão na minha

o que sobrou foi
cheiro
sabor
textura
de algo inefável

o horizonte ainda não alcança
pois
não há limite
no coração de gelo
que
de tanto calor
transformou-se
rio
nesse silêncio líquido

Por Rene Serafim - "Juninho"

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Quando tudo fica assim


a sombra
me queima
como o sol
que se põe

poema
só queima
quando a palvra
corrói

prosa
não queima
nem mesmo
destrói

e essa poesia?

Por Rene Serafim - "Juninho"

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Doce sabor da cura



se a acidez dessas palavras
corroeu seu sentimento
é porque a solução estava forte

não obstante

daquilo que sobraste
fiz do acre
o meu doce sabor

agora

sei que a poção
não tem receita
nem patente

mas

salvou-me de uma ferida
que aos poucos se fechou
e agora está cicatrizada

desculpe

que a sua ainda esteja aberta
embora eu não tenha nenhuma compaixão
tampouco a cura

Por Rene Serafim - "Juninho"


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

domingo, 29 de novembro de 2009

Lá onde o horizonte não alcança


onde o horizonte não alcança
está.

Silencioso
e calmo como as águas do meu mar
está.

Ardente
como o fogo que me consome
está.

Delirante
na viagem de minhas mãos sobre seu corpo
está.

Refletivo
no sentimento afetivo
está.

Está e fica.

Por Rene Serafim - "Juninho"

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Entre a língua e o gozo

Sua língua agridoce que percorre
o meu corpo
caminha sobre as curvas da luxúria

derrama o veneno sabor
do tesão
sob a forma do pecado

inconformado e atento
sedento pelo encontro
fica minha língua sobre o seu tormento

em noites eternas e quentes
chamas se acendem
invocando o ritual

a fusão dos dois corpos
numa só carne nua
exala o perfume

que por ora
me consome
e me confunde

no delírio do teu gozo.

Por Rene Serafim - "Juninho"

P.S.: Poesia originalmente postada no Ilusionistas do Verbo no último domingo.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Após a cerveja

mijar
só é poético
quando diurético

Por Rene Serafim - "Juninho"

P.S.: Haicai feito enquanto urinava no banheiro da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) no festival MUSGO, recitando para o Diógenes que fazia a mesma coisa ao meu lado.

sábado, 14 de novembro de 2009

A última gota

Caíram lágrimas ácidas
destes olhos
que agora te olham

o homem
que os carregam
fora cortado

a faca
aquela deusa
estava sem corte

atingiu o peito
e sem dó
rasgou todo o verbo

a cicatriz
em alto relevo
revela a profundidade

o pingo
da última gota
acabou de cair

agora
chuva não molha
os meu pés.

Por Rene Serafim - "Juninho"

terça-feira, 10 de novembro de 2009

À menina dos olhos

Um lirismo sincero
é isso que eu quero
duas doses do seu beijo
eu desejo

Na ternura do abraço
me enlaço
No toque doce dos lábios
arrepios

Se sentir está além
das limitações humanas
e das aparências
eu quero fazer parte
dos sentimentos
mais belos
vivos
ardentes como os corpos
quando se encostam
no começo da noite
ou no acordar matinal

O prazer de escrever
tais versos
carregados de uma verdade
vivida silenciosamente
e compartilhada pelo desejo
possui a mesma sensação
do cheirar a grama molhada
das gotas de orvalho

Ainda sim
são poucos versos
para dizer tudo
que se faz necessário

Precisaria de toda a poesia
do mundo
ou
vinte anos de poesias diárias
escritas em cada segundo do tempo
com o olhar da menina

Finalizando este poema sem fim
entrego-te este presente
que na mais súbita vontade
saiu do meu corpo
e agora pertence a ti.

Por Rene Serafim - "Juninho"

P.S.: Parabéns Menina dos olhos. "Todo amor que houver nessa vida", eu diria.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

De volta ao mar

Nesse mar de concreto
concretizo minha fala
minha escrita

sob versos primavera
nasce a flor poesia

poliniza o meu ego
externaliza-me
por completo

ainda nesse mar
sem ver o horizonte
rabisco tijolos

sozinho
escrevo canções
da minha vida

não coloco autoria
porque pode ser sua

no desencontro
descubro-me
me encontro.

Por Rene Serafim - "Juninho"

domingo, 1 de novembro de 2009

Deitado


Submerso em cada palavra
afogado nos verbos
intransitivo(s)
não me locomovo

espero
o vazio
do nada

somente com o cheiro
pungente
da dama-da-noite

a outra
a de branco
aguardo no seu tempo
para que venha
enlaçar-me

de braços abertos
e peito também
sigo esperando
na noite sem fim.

Por Rene Serafim - "Juninho"